du.CAna


03/02/2013


Correio do Pampa 174

 

Edição 445

03 & 04 de fevereiro

2013

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A idade que temos

 

Peço licença para vos falar de uma particularidade: quando se está com 64 anos, gozando de boa saúde, não é de todo ruim, contar com essa idade, alias, eu diria que é até muito bom. Com seis décadas de existência poucas coisas nos são impeditivas, moderadamente pode-se fazer de tudo. Tudo mesmo! Desde que não vá contra as leis. Trepar... em árvores, por exemplos, que necessidade temos de subir em árvores? Subir escada correndo, pra quê? Descer do ônibus em movimento, então? Que loucura. Tantas são as coisas que podemos fazer sem a necessidade de se acreditar sempre jovem... Podemos nos sentir jovens com 60 anos. Mas com 60 anos somos velhos.

 

As coisas mudam e mudamos juntos

 

Mas o mundo está aí com todas as suas modernidades, a cada dia uma invenção, um produto novo, novas necessidades... Há alguns anos passados, quem de nós precisava do celular para se comunicar com os parentes, amigos... Quem de nós carregava um “not book” debaixo do braço?

Sentimos vontade de rir quando dizem: – ah, isso não é do meu tempo (tendo com isso o objetivo de mostrar que se é mais jovem). Ou dizer – isso é do teu tempo (brincando de dizer que somos mais velhos). Mas de tudo isso, tirando o vigor físico, que é inegável aos mais velhos cada vez mais debilitado, e isso faz parte da vida (isso de ser mais velho), eu diria que temos uma vantagem, somos mais experientes. Quem não conhece o dito popular: o diabo é sábio não por ser diabo, mas por ser velho.

 

A história é como um idiota

 

Faz parte do cotidiano da humanidade, de tempos em tempos a história se repete, só mudam os personagens... Nunca ouviram a frase: a história é como um idiota, se repete, se repete, se repete... Numa entrevista Millôr Fernandes fez esta declaração, segundo o Jornal A Platéia do dia 20 de janeiro de 1980, isso mesmo, há 33 anos... “Na verdade, o que este país está precisando, no momento, é da coisa mais primária e mais fundamental, da virtude mais reles, mais bíblica e mais inseparável da vida: a honestidade... E, não estou falando da honestidade política, social, metafísica, etc., etc. Estou falando, apenas, daquela honestidade que nos impede de bater a carteira do vizinho. Está todo mundo roubando todo mundo neste país.” – Como assim, Millôr, todo mundo?

 

Em outros tempos, com outras palavras

 

Num documento impresso do Senado Federal, Rio de Janeiro, 1914, na publicação consta uma frase que ficou conhecidíssima do renomado senador e escritor Rui Barbosa. “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.”

 

Comparando os textos

 

O primeiro texto tem três décadas, o segundo quase um século.

Se Millôr Fernandes e Rui Barbosa se plantassem aqui na minha frente, eu diria a eles: não gosto de generalizações. Emparelhar todo mundo, nivelar por baixo. O que é isso? Se é verdade o que disseram, todos os que estão lendo este texto seríamos corruptos, ou estaríamos morrendo de vergonha.

Lembram? Está todo mundo roubando todo mundo neste país. – Isto é, Millôr nos inclui a todos... Os bons desanimam da virtude, riem-se da honra, e sentem vergonha de ser honestos, afirma Barbosa. Por outro lado as nulidades, os desonrados, os injustos, os maus estão a agigantar-se? E não temos como lhes parar o carro? O senso comum, na maioria das vezes, é burro. Até serve para chamar a atenção, não para mostrar como é a realidade, mas dar ciência de que uma parte dessa realidade precisa ser questionada.

 

Vamos deixar a história se repetir?

 

Fazendo um exercício e usar os dois escritores para uma reflexão, o senso comum usado por eles (todo mundo) deixaria de sê-lo para tornar-se senso crítico. Então podemos perguntar: quem tem vergonha de ser honesto? Quem está roubando quem? As experiências dos anos não podem nos tornar idiotas, temos consciência e sabemos quando tentam nos enganar. Transformemos o senso comum numa embasada reflexão. Mostremos o que significa fazer críticas e o que existe de real pro detrás delas. Eu tenho 64 anos e conheço vários argumentos, não parei no tempo e sei fazer meu tempo.

Escrito por jn canabarro às 11h56
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